Saturday, November 25, 2006
. . . . . BitSound
O zito já fazia parte da minha lista de favoritos do Mozilla Firefox. Passou por aqui no outro dia. Volte sempre!
Monday, November 13, 2006
A espera é um delírio
O ser que espera não é real. Tal como o seio da mãe para o recém-nascido, «crio-o e recrio-o sem cessar a partir da minha capacidade de amar, a partir da necessidade que tenho dele»: o outro chega ali onde o espero, ali onde já o criei. E, se ele não chega, alucino-o: a espera é um delírio.
Winnicott
Fragmentos de um discurso amoroso. Roland Barthes
Winnicott
Fragmentos de um discurso amoroso. Roland Barthes
Sunday, November 12, 2006
A minha lista de podcasts
Eles são um espectáculo!
Íntima Fracção
[percepções]
APNEIA
Como no cinema
Sena Santos
Vidro Azul
Miss Tapes
Muito obrigado a todos.
Íntima Fracção
[percepções]
APNEIA
Como no cinema
Sena Santos
Vidro Azul
Miss Tapes
Muito obrigado a todos.
Monday, November 06, 2006
Camera Obscura: Country Mile
Country Mile
Silver Birch against a Swedish sky
The singer in the band made me want to cry
We're all inside our own heads now
We are leaving new friends
We are leaving this town
I wish you could be here with me
I would show you off like a trophy
The road it winds, it twists, it turns, now my stomach burns
Once again I'll be the foolish one
Thinking a blink of these lashes would make you come
Don't you worry, don't get in a state
I don't believe in true love anyway
Who's being pessimistic now
I could document this as our first and our last row
The more you look forlorn, the more to you I warm
I won't be seeing you for a long while
I hope it's not as long as a country mile
I feel lost
Silver Birch against a Swedish sky
The singer in the band made me want to cry
We're all inside our own heads now
We are leaving new friends
We are leaving this town
I wish you could be here with me
I would show you off like a trophy
The road it winds, it twists, it turns, now my stomach burns
Once again I'll be the foolish one
Thinking a blink of these lashes would make you come
Don't you worry, don't get in a state
I don't believe in true love anyway
Who's being pessimistic now
I could document this as our first and our last row
The more you look forlorn, the more to you I warm
I won't be seeing you for a long while
I hope it's not as long as a country mile
I feel lost
Saturday, November 04, 2006
Crossing Over
A recombinação, ou permutação (ou ainda, em inglês, "crossover") é um fenômeno que ocorre durante a prófase da meiose, em que os cromatídeos homólogos, mas não irmãos, se entrelaçam, sofrem quebras e fazem permuta de segmentos cromossómicos, havendo assim troca de genes; serve para aumentar a variabilidade genética das células-filhas.
Pela terceira vez altero o nome do blog. Novas estratégias pairam no horizonte.
Pela terceira vez altero o nome do blog. Novas estratégias pairam no horizonte.
Tuesday, October 31, 2006
Tuesday, October 03, 2006
Hi, what's up?
Alimentar um blog é tarefa díficil. Três é impossível.
O Lonely Soul vai continuar a ser um blog intermitente mas vai continuar.
De resto tudo mais ou menos igual.
O Lonely Soul vai continuar a ser um blog intermitente mas vai continuar.
De resto tudo mais ou menos igual.
Saturday, January 07, 2006
Tuesday, March 01, 2005
Thursday, February 10, 2005
A solidão do apaixonado
A solidão do apaixonado não é uma solidão de pessoa (o amor confia-se, fala-se, conta-se), é uma solidão de sistema (talvez porque sou incessantemente abatido pelo solipsismo do meu discurso). Difícil paradoxo: posso ser ouvido por todos (o amor vem dos livros, o seu dialecto é corrente), mas só posso ser escutado (recebido «profeticamente») pelos sujeitos que têm exactamente e presentemente a mesma linguagem que eu. Os apaixonados, diz Alcibíades, assemelham-se aos que foram mordidos por uma víbora: «Não querem, diz-se, falar do seu acidente a ninguém, excepto àqueles que dele já foram vítimas, por serem estes os únicos capazes de compreender e desculpar tudo o que eles ousaram dizer e fazer sob o efeito das dores»: miserável tropa dos «Defuntos famélicos», dos Suicidas de amor (quantas vezes se não suicida um mesmo apaixoando?), a quem nenhuma grande linguagem (se não for, fragmentariamente, a do Romance passado) empresta a voz.
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso
Wednesday, February 09, 2005
É Assim a Música
A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração - por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.
Eugénio de Andrade, Poesia
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração - por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.
Eugénio de Andrade, Poesia
Tuesday, February 08, 2005
Nota
É que penso que o que decide
sobre o bem e o mal
não é a comunicação
das pessoas entre elas, mas
apenas a maneira das pessoas
se darem consigo próprias.
Jakob Wassermann, Der Fall Maurizius
sobre o bem e o mal
não é a comunicação
das pessoas entre elas, mas
apenas a maneira das pessoas
se darem consigo próprias.
Jakob Wassermann, Der Fall Maurizius
Monday, February 07, 2005
O Peso da Sombra
Sunday, February 06, 2005
Saturday, February 05, 2005
Too young to die but too old to survive
Too young to die
But too old to survive -
I've spent too long
Trying to write this song.
The tune is okay
But the words are all wrong -
Maybe its time for a change.
I've lived a lie
Since the day I arrived,
Building my dreams
Grand romantic schemes.
Now I'm 28
But I'm still in my teens -
Well maybe its time for a change.
Now it's time to say goodbye
To my suit, my shirt, my tie.
My youth seems to have passed me by
And I'm too young to die.
I will not weep
For what we leave behind.
I must break free
From that part of me
That values the art
Over the humanity.
I think its time for a change.
I thought that I
Was doing fine
But now I've changed my mind
'Cause now its time to say goodbye
To my suit, my shirt, my tie.
My youth seems to have passed me by
And I'm too young to die.
Too young to die,
Yeah,
Too young,
Too young
Yeah, yeah, yeah!
Maybe its time for a change.
The Divine Comedy, Too Young To Die
Friday, February 04, 2005
Arno Gruen
A atracção da morte só pode ser vencida se uma pessoa sentir mesmo a dor de outrem - e não pela pena de si próprio. Onde ainda existem as possibilidades de tal vivência, atitudes e acções podem mudar - independentemente de situações de perigo exteriores.
Arno Gruen, A Loucura da Normalidade
Thursday, February 03, 2005
Eterno Retorno
Em cada indivíduo a capacidade da dor está determinada de uma vez para sempre; uma medida que não pode ficar vazia, nem ser muito cheia... Se uma grande aflição é de nós afastada, outra imediatamente a substitui, cujo material já lá estava mas não podia subir à consciência por não haver espaço... Agora que se abriu espaço, veio ocupá-lo.
Schopenhauer, vol. I
Aristóteles tinha razão: o sábio não procura o prazer, mas a libertação dos cuidados e da dor.
Wednesday, February 02, 2005
Tuesday, February 01, 2005
Roland Barthes (2ª parte)
Continua a transcrição da entrevista a Roland Barthes ao Art Press em Maio de 1977, conduzida por Jacques Henric e publicada no volume 37 da colecção Signos.
Falemos então, se não se importa, destes Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Para evitar possíveis equívocos de leitura, poderia explicar o título?
Preciso fazer, rapidamente a história do projecto. Tinha, continuo a ter, um seminário na Écoles des Hautes Études e como sabe somos vários investigadores e ensaístas a trabalhar sobre a noção de discurso, de discursividade. Noção que se distingue da de língua, de linguagem. Trata-se de discursividade em sentido amplo: a discursividade, a zona da linguagem, é um objecto de análise. Há pouco mais de dois anos, decidi-me a estudar um certo tipo de discurso: o que eu presumia ser o discurso amoroso, estando assente desde o princípio que se tratava de sujeitos apaixonados dependendo do que se chama o amor-paixão, o amor romântico. Decidi portanto fazer um seminário que seria a análise objectiva de um tipo de discursividade. Escolhi então um texto tutor e analisei o discurso amoroso nessa obra. Não a obra em si mesma, mas o discurso amoroso. Foi o Werther de Goethe, que é o próprio arquétipo do amor-paixão. Mas durante os dois anos desse seminário verifiquei um duplo movimento. Primeiramente, apercebi-me que eu próprio me projectava, em nome da minha experiência passada, da minha vida, nalgumas daquelas figuras. Chegava mesmo a misturar figuras que vinham da minha vida com as figuras de Werther.
Segunda verificação: os que assistiam ao seminário projectavam-se, eles próprios, muito fortemente no que era dito. Nessas condições, disse para mim mesmo que, a partir do momento em que passava do seminário ao livro, a honestidade não estava em escrever um tratado sobre o discurso amoroso, pois isso teria sido uma espécie de mentira (já que não aspirava a uma generalidade de tipo científico) mas, pelo contrário, em escrever eu próprio o discurso de um sujeito apaixonado. Houve uma transposição. Evidentemente, a influência de Nietzsche, mesmo que o tenha deformado muito, foi então sensível. Em particular, tudo o que Nietzsche ensina sobre a necessidade de «dramatizar», de adoptar um método de «dramatização» que tinha para mim a vantagem epistemológica de me separar da metalinguagem. A partir de O Prazer do Texto já não posso suportar a dissertação sobre o assunto. Por isso fabriquei, simulei um discurso que é o discurso de um sujeito apaixonado. O título é muito explícito e foi voluntariamente construído: não é um livro sobre o discurso amoroso, é um livro de um sujeito apaixonado. Esse sujeito apaixonado não sou eu forçosamente. Digo-o francamente, há elementos que vem de mim, outros que vem do Werther do Goethe ou leituras culturais que eu fiz, na zona dos místicos, da psicanálise, de Nietzsche... Há também confidências, conversas que provêm de amigos. Estes estão muito presentes neste livro. O resultado é, pois, o discurso de um sujeito que diz eu, que está portanto individualizado ao nível da enunciação; mas é apesar disso um discurso composto, simulado ou, se quiser, um discurso «montado» (resultado de uma montagem).
Contudo quem diz «eu» nestes Fragmentos?
A si eu poderia responder e você compreenderá que quem diz «eu» no livro é o eu da escrita. É realmente tudo o que se pode dizer. Naturalmente, sobre esse ponto, podem levar-me a dizer que se trata de mim. Daria então uma resposta ambígua: sou eu e não sou eu. Trata-se tanto de mim, se me permite a comparação talvez enfatuada, como de Stendhal num personagem por ele criado. É nisso que é um texto bastante romanesco. Aliás, a relação entre o autor e o personagem que é posto em cena é do tipo romanesco.
Com efeito, certos «fragmentos» são verdadeiros começos de narrativas. Uma história começa a nascer e é imediatamente interrompida. Muitas vezes me perguntei diante desses começos muito conseguidos, muito «escritos», mas porque é que ele não prossegue? Porque não um verdadeiro romance? Uma verdadeira autobiografia?
Isso há-de acontecer talvez. Há muito tempo que namoro essa ideia. Mas no caso deste livro, se a história nunca engrena é em função diria, de uma doutrina. A visão que tenho do discurso amoroso é uma visão fragmentada, descontínua, borboleteante. São episódios de linguagem que volteiam na cabeça do sujeito enamorado, apaixonado, e esses episódios interrompem-se bruscamente por causa desta ou daquela circunstância, ciúme, encontro falhado, espera insuportável, que intervém, e nesse momento essa espécie de bocados de monólogos são quebrados e passa-se a outra figura. Respeitei o descontínuo radical dessa tormenta de linguagem que se desencadeia, na cabeça do apaixonado. Foi por isso que dividi o conjunto em fragmentos e os pus por ordem alfabética. Não queria de forma nenhuma que o livro se parecesse com uma história de amor. A minha convicção é de que a história de amor bem construída, com um princípio e um fim, e uma crise no meio, é a forma que a sociedade oferece ao sujeito apaixonado de se reconciliar de algum modo com a linguagem do grande Outro, construindo para si próprio uma narrativa na qual se coloca. Estou convencido de que o apaixonado que sofre não tem sequer o privilégio desta reconciliação e não está, paradoxalmente, na história de amor; ele está noutra coisa que se parece muito com a loucura, não é por acaso que se fala de apaixonados loucos, é que a história é impossível do ponto de vista do sujeito apaixonado. Eu procurei portanto, constantemente, quebrar a construção da história. Num certo momento cheguei mesmo a pensar colocar no início uma figura que tem um valor de fundação inicial, a paixão súbita, o enamoramento, o êxtase; hesitei muito e disse para comigo que não, mesmo essa não posso jurar que seja cronologicamente uma primeira figura porque é muito possível que essa paixão súbita, afinal, funcione apenas como fora de tempo, como algo que o sujeito apaixonado conta a si próprio. É portanto um livro descontínuo que protesta um pouco contra a história de amor.
Que quer dizer quando escreve: «eu estou ao lado da escrita»?
Primeiro uma digressão: apercebi-me de que havia dois tipos de sujeito apaixonado. Há o da literatura francesa, de Racine a Proust, que é, digamos, paranóico, o ciumento. Há um outro que não existe propriamente na literatura francesa mas que foi admiravelmente recriado pelo romantismo alemão e nomeadamente nos lieder de Schubert e Schumann (de que falo, aliás, no livro). Este é um tipo de apaixonado que não está centrado no ciúme; o ciúme não está excluído deste amor-paixão, mas é um sentimento amoroso que é muito mais efusivo, que visa uma cumulação. A figura essencial é então a Mãe. Uma das figuras do meu livro diz respeito, precisamente, ao desejo, à tentação, à pulsão que o sujeito apaixonado tem, muitas vezes, ao que parece, e é atestado nos livros, de criar, pintar, ou escrever para o objecto amado. Eu tento então exprimir o profundo pessimismo que se pode ter nesse plano, ou seja o discurso do sujeito apaixonado não pode tornar-se uma escrita sem enormes abandonos e transformações.
O meu pensamento profundo sobre o sujeito apaixonado é o de que ele é um marginal. Daí a minha decisão de publicar este livro, de algum modo, como uma forma de dar voz a uma marginalidade tanto mais forte quanto, actualmente, não está sequer na moda dos marginais. Um livro sobre o discurso amoroso é muito mais kitsch que um livro sobre drogados por exemplo.
Não é necessária uma certa audácia para falar do amor como você o faz, face ao discurso psicanalítico dominante?
Há com efeito no meio livro uma relação com o discurso psicanalítico que é, eu diria, «interessante», pois essa relação evoluiu mesmo na altura em que eu fazia o seminário e o livro. Sabe muito bem que, se se interroga a cultura hoje - esse é também um dos argumentos do livro - não há nenhuma grande linguagem que leve em linha de conta o sentimento amoroso. A psicanálise, entre essas grandes linguagens, tentou pelo menos descrições do estado amoroso, há-as em Freud, em Lacan e noutros analistas. Fui obrigado a servir-me dessas descrições, elas eram tópicos, solicitavam-me, de tal modo eram pertinentes. Dou conta delas no livro porque o sujeito apaixonado que eu ponho em cena é um sujeito que tem uma cultura de hoje incluindo portanto um pouco de psicanálise que ele aplica a si próprio, de uma forma selvagem. Mas à medida que se desenrolava o discurso simulado do apaixonado, este discurso desenvolvia-se como a afirmação de um valor, o amor como uma ordem de valores afirmativos que faz frente a todos os ataques. Neste momento, ao sujeito apaixonado só resta separar-se do discurso analítico na medida em que este fala, é certo, do sentimento amoroso, mas de uma forma, finalmente, sempre depreciativa, convidando o sujeito a reintegrar uma certa normalidade, a separar «estar apaixonado» de «amar» e «amar bem», etc. Há uma normalidade do sentimento amoroso na psicanálise que é de facto a reivindicação do casal, do casal casado mesmo... Portanto a relação que eu tenho neste livro com a psicanálise é muito ambígua: é uma relação que, como sempre, utiliza descrições, noções psicanalíticas, mas que as utiliza um pouco como elementos de uma ficção não forçosamente credível.
Nunca, como ao lê-lo, tive tanto a impressão de que a escrita, em profundidade, está ligada à ética. Insistiu nesse ponto na sua lição inaugural no Collège de France. Gostaria que o retomasse...
É uma bela pergunta. Mas não consigo discernir bem essa questão e apenas posso dizer-lhe que sinto a escrita deste livro de uma forma um pouco especial. Dado o assunto, eu era chamado a proteger este livro. Para proteger este discurso que se pronunciava em nome do «eu», o que é, apesar de tudo, um risco, a minha maior protecção foi a língua pura ou, diria mesmo, precisamente, a sintaxe. Senti até que ponto a sintaxe podia proteger aquele que falava. É uma arma de dois gumes porque também pode ser um instrumento de repressão - e é-o muitas vezes -, mas quando sujeito está muito desarmado, muito exposto, muito só, a sintaxe protege-o. Este livro é bastante sintáctico, quer dizer, é uma escrita pouco lírica, bastante litótica, bastante elíptica, onde não há grandes invenções de palavras, neologismos, mas onde há uma atenção ao cerne da frase. É nesse momento que a escrita funciona de algum modo como uma moral que teria, de preferência, os seus modelos de agnosticismo, do cepticismo, das morais que não são morais da fé.
Falemos então, se não se importa, destes Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Para evitar possíveis equívocos de leitura, poderia explicar o título?
Preciso fazer, rapidamente a história do projecto. Tinha, continuo a ter, um seminário na Écoles des Hautes Études e como sabe somos vários investigadores e ensaístas a trabalhar sobre a noção de discurso, de discursividade. Noção que se distingue da de língua, de linguagem. Trata-se de discursividade em sentido amplo: a discursividade, a zona da linguagem, é um objecto de análise. Há pouco mais de dois anos, decidi-me a estudar um certo tipo de discurso: o que eu presumia ser o discurso amoroso, estando assente desde o princípio que se tratava de sujeitos apaixonados dependendo do que se chama o amor-paixão, o amor romântico. Decidi portanto fazer um seminário que seria a análise objectiva de um tipo de discursividade. Escolhi então um texto tutor e analisei o discurso amoroso nessa obra. Não a obra em si mesma, mas o discurso amoroso. Foi o Werther de Goethe, que é o próprio arquétipo do amor-paixão. Mas durante os dois anos desse seminário verifiquei um duplo movimento. Primeiramente, apercebi-me que eu próprio me projectava, em nome da minha experiência passada, da minha vida, nalgumas daquelas figuras. Chegava mesmo a misturar figuras que vinham da minha vida com as figuras de Werther.
Segunda verificação: os que assistiam ao seminário projectavam-se, eles próprios, muito fortemente no que era dito. Nessas condições, disse para mim mesmo que, a partir do momento em que passava do seminário ao livro, a honestidade não estava em escrever um tratado sobre o discurso amoroso, pois isso teria sido uma espécie de mentira (já que não aspirava a uma generalidade de tipo científico) mas, pelo contrário, em escrever eu próprio o discurso de um sujeito apaixonado. Houve uma transposição. Evidentemente, a influência de Nietzsche, mesmo que o tenha deformado muito, foi então sensível. Em particular, tudo o que Nietzsche ensina sobre a necessidade de «dramatizar», de adoptar um método de «dramatização» que tinha para mim a vantagem epistemológica de me separar da metalinguagem. A partir de O Prazer do Texto já não posso suportar a dissertação sobre o assunto. Por isso fabriquei, simulei um discurso que é o discurso de um sujeito apaixonado. O título é muito explícito e foi voluntariamente construído: não é um livro sobre o discurso amoroso, é um livro de um sujeito apaixonado. Esse sujeito apaixonado não sou eu forçosamente. Digo-o francamente, há elementos que vem de mim, outros que vem do Werther do Goethe ou leituras culturais que eu fiz, na zona dos místicos, da psicanálise, de Nietzsche... Há também confidências, conversas que provêm de amigos. Estes estão muito presentes neste livro. O resultado é, pois, o discurso de um sujeito que diz eu, que está portanto individualizado ao nível da enunciação; mas é apesar disso um discurso composto, simulado ou, se quiser, um discurso «montado» (resultado de uma montagem).
Contudo quem diz «eu» nestes Fragmentos?
A si eu poderia responder e você compreenderá que quem diz «eu» no livro é o eu da escrita. É realmente tudo o que se pode dizer. Naturalmente, sobre esse ponto, podem levar-me a dizer que se trata de mim. Daria então uma resposta ambígua: sou eu e não sou eu. Trata-se tanto de mim, se me permite a comparação talvez enfatuada, como de Stendhal num personagem por ele criado. É nisso que é um texto bastante romanesco. Aliás, a relação entre o autor e o personagem que é posto em cena é do tipo romanesco.
Com efeito, certos «fragmentos» são verdadeiros começos de narrativas. Uma história começa a nascer e é imediatamente interrompida. Muitas vezes me perguntei diante desses começos muito conseguidos, muito «escritos», mas porque é que ele não prossegue? Porque não um verdadeiro romance? Uma verdadeira autobiografia?
Isso há-de acontecer talvez. Há muito tempo que namoro essa ideia. Mas no caso deste livro, se a história nunca engrena é em função diria, de uma doutrina. A visão que tenho do discurso amoroso é uma visão fragmentada, descontínua, borboleteante. São episódios de linguagem que volteiam na cabeça do sujeito enamorado, apaixonado, e esses episódios interrompem-se bruscamente por causa desta ou daquela circunstância, ciúme, encontro falhado, espera insuportável, que intervém, e nesse momento essa espécie de bocados de monólogos são quebrados e passa-se a outra figura. Respeitei o descontínuo radical dessa tormenta de linguagem que se desencadeia, na cabeça do apaixonado. Foi por isso que dividi o conjunto em fragmentos e os pus por ordem alfabética. Não queria de forma nenhuma que o livro se parecesse com uma história de amor. A minha convicção é de que a história de amor bem construída, com um princípio e um fim, e uma crise no meio, é a forma que a sociedade oferece ao sujeito apaixonado de se reconciliar de algum modo com a linguagem do grande Outro, construindo para si próprio uma narrativa na qual se coloca. Estou convencido de que o apaixonado que sofre não tem sequer o privilégio desta reconciliação e não está, paradoxalmente, na história de amor; ele está noutra coisa que se parece muito com a loucura, não é por acaso que se fala de apaixonados loucos, é que a história é impossível do ponto de vista do sujeito apaixonado. Eu procurei portanto, constantemente, quebrar a construção da história. Num certo momento cheguei mesmo a pensar colocar no início uma figura que tem um valor de fundação inicial, a paixão súbita, o enamoramento, o êxtase; hesitei muito e disse para comigo que não, mesmo essa não posso jurar que seja cronologicamente uma primeira figura porque é muito possível que essa paixão súbita, afinal, funcione apenas como fora de tempo, como algo que o sujeito apaixonado conta a si próprio. É portanto um livro descontínuo que protesta um pouco contra a história de amor.
Que quer dizer quando escreve: «eu estou ao lado da escrita»?
Primeiro uma digressão: apercebi-me de que havia dois tipos de sujeito apaixonado. Há o da literatura francesa, de Racine a Proust, que é, digamos, paranóico, o ciumento. Há um outro que não existe propriamente na literatura francesa mas que foi admiravelmente recriado pelo romantismo alemão e nomeadamente nos lieder de Schubert e Schumann (de que falo, aliás, no livro). Este é um tipo de apaixonado que não está centrado no ciúme; o ciúme não está excluído deste amor-paixão, mas é um sentimento amoroso que é muito mais efusivo, que visa uma cumulação. A figura essencial é então a Mãe. Uma das figuras do meu livro diz respeito, precisamente, ao desejo, à tentação, à pulsão que o sujeito apaixonado tem, muitas vezes, ao que parece, e é atestado nos livros, de criar, pintar, ou escrever para o objecto amado. Eu tento então exprimir o profundo pessimismo que se pode ter nesse plano, ou seja o discurso do sujeito apaixonado não pode tornar-se uma escrita sem enormes abandonos e transformações.
O meu pensamento profundo sobre o sujeito apaixonado é o de que ele é um marginal. Daí a minha decisão de publicar este livro, de algum modo, como uma forma de dar voz a uma marginalidade tanto mais forte quanto, actualmente, não está sequer na moda dos marginais. Um livro sobre o discurso amoroso é muito mais kitsch que um livro sobre drogados por exemplo.
Não é necessária uma certa audácia para falar do amor como você o faz, face ao discurso psicanalítico dominante?
Há com efeito no meio livro uma relação com o discurso psicanalítico que é, eu diria, «interessante», pois essa relação evoluiu mesmo na altura em que eu fazia o seminário e o livro. Sabe muito bem que, se se interroga a cultura hoje - esse é também um dos argumentos do livro - não há nenhuma grande linguagem que leve em linha de conta o sentimento amoroso. A psicanálise, entre essas grandes linguagens, tentou pelo menos descrições do estado amoroso, há-as em Freud, em Lacan e noutros analistas. Fui obrigado a servir-me dessas descrições, elas eram tópicos, solicitavam-me, de tal modo eram pertinentes. Dou conta delas no livro porque o sujeito apaixonado que eu ponho em cena é um sujeito que tem uma cultura de hoje incluindo portanto um pouco de psicanálise que ele aplica a si próprio, de uma forma selvagem. Mas à medida que se desenrolava o discurso simulado do apaixonado, este discurso desenvolvia-se como a afirmação de um valor, o amor como uma ordem de valores afirmativos que faz frente a todos os ataques. Neste momento, ao sujeito apaixonado só resta separar-se do discurso analítico na medida em que este fala, é certo, do sentimento amoroso, mas de uma forma, finalmente, sempre depreciativa, convidando o sujeito a reintegrar uma certa normalidade, a separar «estar apaixonado» de «amar» e «amar bem», etc. Há uma normalidade do sentimento amoroso na psicanálise que é de facto a reivindicação do casal, do casal casado mesmo... Portanto a relação que eu tenho neste livro com a psicanálise é muito ambígua: é uma relação que, como sempre, utiliza descrições, noções psicanalíticas, mas que as utiliza um pouco como elementos de uma ficção não forçosamente credível.
Nunca, como ao lê-lo, tive tanto a impressão de que a escrita, em profundidade, está ligada à ética. Insistiu nesse ponto na sua lição inaugural no Collège de France. Gostaria que o retomasse...
É uma bela pergunta. Mas não consigo discernir bem essa questão e apenas posso dizer-lhe que sinto a escrita deste livro de uma forma um pouco especial. Dado o assunto, eu era chamado a proteger este livro. Para proteger este discurso que se pronunciava em nome do «eu», o que é, apesar de tudo, um risco, a minha maior protecção foi a língua pura ou, diria mesmo, precisamente, a sintaxe. Senti até que ponto a sintaxe podia proteger aquele que falava. É uma arma de dois gumes porque também pode ser um instrumento de repressão - e é-o muitas vezes -, mas quando sujeito está muito desarmado, muito exposto, muito só, a sintaxe protege-o. Este livro é bastante sintáctico, quer dizer, é uma escrita pouco lírica, bastante litótica, bastante elíptica, onde não há grandes invenções de palavras, neologismos, mas onde há uma atenção ao cerne da frase. É nesse momento que a escrita funciona de algum modo como uma moral que teria, de preferência, os seus modelos de agnosticismo, do cepticismo, das morais que não são morais da fé.
Roland Barthes, O Grão da Voz
Saturday, January 29, 2005
Roland Barthes
O Alphabeta7703 tem uma predilecção pelo livro Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes. Isto porque, como afirma o autor no início da obra, "o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas (quem o sabe?), mas não é defendido por ninguém. Está completamente banido das linguagens circundantes: ignorado, desacreditado ou ridicularizado por elas, cortado não somente do poder, mas também dos seus mecanismos (ciências, conhecimentos, artes)".
A colecção Signos da edições 70 publicou vários livros de Roland Barthes incluindo o já mencionado Fragmentos de um Discurso Amoroso. O volume 37 desta colecção recolhe a quase totalidade das entrevistas dadas por Roland Barthes em francês, entre 1962 e 1980. E é deste número que apresento a entrevista dada ao Art Press em Maio de 1977 por ocasião do lançamento de Fragmentos de um Discurso Amoroso. A entrevista foi traduzida por Teresa Meneses e Alexandre Melo.
Dentro de dias será lançado um novo livro de Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, nas Éditions du Seuil (colecção «Tel Quel»).
Roland Barthes aceitou responder às nossas perguntas. Como situa, hoje em dia, o seu trabalho? Que lugar tem a sensação de ocupar no actual debate das ideias? Porquê, neste momento, um livro sobre o discurso amoroso? Que papel desempenha o elemento autobiográfico? Que relação existe entre escrita e estética?
Roland Barthes, parece-me que desde O Grau Zero da Escrita, desde Mitologias, e de livro em livro, você vem-se tornando um autor cada vez menos localizável. Lançando uma vista de olhos retrospectivamente sobre o seu trabalho passado, como se situa na história do pensamento destes últimos anos? E que lugar tem a sensação de ocupar no debate de ideias actualmente em curso?
Há, precisamente nestes fragmentos do discurso amoroso, de um discurso amoroso, uma figura que tem um nome grego, o adjectivo que se aplicava a Sócrates. Dizia-se que Sócrates era atopos, quer dizer «sem lugar», inclassificável. É um adjectivo que eu aproximo sobretudo do objecto amado, tanto mais que, enquanto sujeito apaixonado simulado no livro, não saberia reconhecer-me como atopos mas, pelo contrário, como uma pessoa banal cujo dossier é bem conhecido. Sem tomar posição quanto ao facto de ser inclassificável, devo reconhecer que sempre trabalhei por repentes, por fases, e que há uma espécie de motor, que expliquei um pouco em Roland Barthes, e que é o paradoxo. Quando um conjunto de posições parecem reificar-se, constituir uma situação social um pouco mais precisa, então efectivamente, de forma espontânea e mesmo sem o pensar, sinto o desejo de ir noutra direcção. E é nisso que eu poderia reconhecer-me como um intelectual; sendo a função do intelectual ir sempre noutra direcção quando «as coisas pegam». Quanto à segunda parte da sua pergunta, como me situo agora, não me situo de modo algum como alguém que tenta alcançar a originalidade, mas como alguém que tenta sempre dar uma voz a uma certa marginalidade. O que é um pouco complicado de explicar é que em mim essa reivindicação de marginalidade nunca se faz de uma forma gloriosa. É uma marginalidade que conserva aspectos bastante corteses, bastante ternos - porque não? - e não se lhe pode atribuir uma etiqueta bem definida do movimento actual das ideias.
Há muitas vezes em si, e de maneira explícita, uma dupla reivindicação aparentemente contraditória. Por um lado, manifesta o seu interesse pela modernidade (introdução de Brecht em França, O Nouveau Roman, Tel Quel...), por outro lado gosta de evocar os seus gostos literários tradicionais. Qual é a coerência profunda destas escolhas?
Não sei se há uma coerência profunda, mas é verdadeiramente o meu íntimo. As coisas nem sempre estiveram tão claras em mim como você agora diz e, durante muito tempo, senti-me dividido de forma quase inconfessável entre alguns dos meus gostos, ou do que eu chamaria - porque gosto de definir as coisas em termos de conduta, de preferência a defini-las em termos de gosto - as minhas leituras de noite (o que leio à noite) e que são sempre livros clássicos, e o meu trabalho de dia em que, efectivamente, sem nenhuma espécie de hipocrisia, me sentia extremamente solidário, no plano teórico e crítico, com certos trabalhos da modernidade. Esta contradição continuava a ser um pouco clandestina e foi apenas a partir de O Prazer do Texto que reivindiquei o direito a reconhecer para mim e fazer reconhecer ao leitor certo gosto pela literatura passada. E então, como sempre quando nos reconhecemos o direito de dizer um gosto, a teoria não está longe. E tento, mais ou menos, fazer a teoria desse gosto do passado. Sirvo-me de dois argumentos: primeiramente de uma metáfora. A história caminha em espiral, segundo a imagem de Vico, coisas antigas voltam, mas evidentemente não voltam ao mesmo lugar; em consequência, há gostos, valores, condutas, «escritas», do passado que podem voltar num lugar muito moderno. O segundo argumento está ligado ao trabalho sobre o sujeito apaixonado. Esse sujeito desenvolve-se principalmente num registo que, desde Lacan, se chama o imaginário - e eu reconheço-me como sujeito do imaginário: tenho uma relação viva com a literatura passada porque, justamente, essa literatura fornece-me uma boa relação com a imagem. Por exemplo, a narração, o romance, é uma dimensão do imaginário que existia na literatura «legível»; ao reconhecer o meu apego a essa literatura, reivindico em favor do sujeito imaginário na medida em que esse sujeito está de algum modo deserdado, esmagado pelas duas grandes estruturas psíquicas que mais retiveram a atenção da modernidade, ou seja, a neurose e a psicose. O sujeito imaginário é um parente pobre dessas estruturas porque nunca é nem inteiramente psicótico, nem inteiramente neurótico. Bem vê que, militando discretamente por esse sujeito do imaginário, posso conceder-me o álibi de um trabalho, no fim de contas, bastante avançado, como que uma forma de vanguarda de amanhã, com um pouco de humor...
Não é também quando a modernidade se transforma em discurso hegemónico, em estereótipos, que você, à sua maneira, guarda as suas distâncias? Não há algo de provocação em falar de «amor», tal como havia, ontem, em pleno estruturalismo, em defender o «prazer do texto»?
Sem dúvida, mas não vivo isso como comportamentos tácticos. Simplesmente, como você disse e muito bem, tenho uma espécie de dificuldade profunda em suportar a estereotipia, a elaboração de pequenas linguagens colectivas que eu conheço bem através do meu trabalho num determinado meio, o meio estudantil. Identifico portanto muito facilmente essas linguagens estereotipadas da marginalidade, a estereotipia da não-esterotipia. Oiço-as formarem-se. No princípio, isso pode proporcionar um certo prazer, mas a pouco e pouco começa a pesar. Durante um certo tempo não ouso mudar de rumo e finalmente, muitas vezes por causa de um acidente da minha vida pessoal, ganho coragem para romper com essas linguagens.
Roland Barthes, O Grão da Voz.
[continua num próximo post]
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